High Fidelity
Word.

O escritor Isaac Marion é um sortudo. Ao lançar em seu blog o conto “I am a zombie filled with Love”, viu este se tornar cada vez mais popular na internet, o que chamou a atenção de um olheiro da indústria cinematográfica. A partir daí, o conto se tornou um livro chamado “Sangue Quente” e a adaptação para o cinema já estava garantida.
O motivo de toda a repercussão era justificável, o conto era uma interessante narrativa da vida pós-apocalipse do ponto de vista de um zumbi, discorrendo sobre as vantagens e desvantagens de se estar morto, inclusive dando uma interessante explicação sobre a predileção por cérebros na parte onde descreve a caça pelo alimento:
“A cidade onde as pessoas moram não é muito longe. Nós chegamos pelo meio-dia e começamos a procurar por carne fresca. O novo tipo de fome é uma sensação estranha. Você não a sente no estômago — claro que não, já que alguns de nós nem têm estômago. Você a sente… por todo lado. Você começa a se sentir “mais morto”. Eu já vi alguns de meus amigos voltarem à morte total quando a comida é escassa. Eles vão ficando mais lentos, param, e se tornam cadáveres de novo. Eu não entendo nada.
Encontramos algumas pessoas em um conjunto de prédios de apartamentos arruinados, e as comemos. Algumas delas têm armas e, como sempre, temos algumas baixas, mas não nos importamos. Por que nos importaríamos? O que é a morte, agora?
Mas é claro que eu não deixo sobrar o bastante. Eu como o cérebro dele, porque é a melhor parte. É a parte que, quando engolida, faz minha cabeça se iluminar com sensações. Memórias claras. De três a dez segundos, dependendo da pessoa, eu consigo me sentir vivo. Eu distingo traços de refeições deliciosas, belas canções, perfumes, crepúsculos, orgasmos, vida. E então tudo se dissolve, eu me levanto e vou tropeçando para fora da cidade, ainda morto, mas sentindo como se o fosse um pouco menos. Me sentindo bem.”
Porém, a impressão que se tem é que a estória funciona melhor em conto do que em um livro, justamente porque de forma curta ela termina no momento certo. Já extendida, apesar de algumas boas sacadas, o foque da narrativa se desvirtua por causa do plot mais romantizado, girando em torno da paixão de um zumbi por uma humana, deixando a narrativa antes existencialista, um pouco melosa.
Em entrevistas, Marion tenta desvincular seu primeiro livro das comparações com a série Crepúsculo, o que convenhamos é difícil quando a adaptação de Sangue Quente será produzida pela Summit Entertainment, responsável por trazer as telas as obras de Stephanie Meyer.